segunda-feira, 21 de abril de 2008

VALE MAIS QUE UM POEMA

AIRES DE ALMEIDA SANTOS
Poeta e Escritor
13/02/1922 - 03/09/1992


Alguém disse sobre ele "amou a vida como poeta e compreendeu os homens como poucos".
A acrescentar, cito David Mestre no fantástico prefácio do livro de poemas "Meu Amor da Rua 11", numa análise de carácter profundamente verdadeira: "o poeta tem a cabeça encanecida e os sapatos cobertos de poeira. Sapatos de andarilho, humílimos servidores de quem percorreu a vida pelos caminhos do coração"!

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Aires de Almeida Santos, um dos poetas angolanos que na década de cinquenta cantou a clandestinidade, foi o maestro em "Meu Amor da Rua 11" de uma das mais belas formas de fazer Poesia.

Da juventude de "Quem tem o Canhé", "Colar de Missangas", "A Mulemba Secou" à feliz e transparente mensagem de "Quando os meus irmãos voltarem" (Arderá uma fogueira à beira de cada trilho e o brilho de cada estrela será ainda maior, Mãezinha, ouve o teu filho, não tardes mãe vem depressa..) ou "Quem?" (Quem ousa negar o verde dos muxitos, os longes das anharas, o ritmo das canções que os rios cantam a cair de rocha em rocha, o silêncio verdadeiro dos desertos amarelos?), o poeta canta numa linguagem de afectos muito própria onde a força inspiradora da palavra voa como um sonho...livre! Livre de ódios e ressentimentos, bela, apaziguadora e generosa!

"À minha filha", poema dedicatória de "Meu Amor da Rua 11", escrito em 1966 na Cadeia Comarcã de Luanda, é também a expressão disso mesmo. Por achar que é pouco divulgado apesar de publicado, quero destacar nesta página essas rimas únicas de tão terna inspiração, pese embora toda a beleza das restantes obras.

Para ti, querida
Rosas e mel
E estrelas rutilantes,
Risos gritantes,
Muita ternura e carinho
E o Sol
Brilhando muito
Em frente ao teu caminho.

Deixa comigo o fel,
A dor, o desespero
Deixa que eu fira a pele
Nos ásperos abrolhos
Da vida.

Deixa chorar meus olhos
Deixa comigo
O peso do sonho tão antigo.

Para ti, querida
Paz, amor, ternura
Estrelas rutilantes,
Rosas e Mel...

A.A.S.
14/01/1966


Amora /Seixal Março 2008
Sara Lidia de Almeida Santos Marques da Silva

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A minha estreia neste blogue tem, como objectivo principal, homenagear da melhor forma que o coração encontrou, um Homem que já partiu há muitos anos deixando um vazio no espaço intelectual que ocupou com muita humildade mas também com muito talento - AIRES DE ALMEIDA SANTOS.

Saúdo pois todos os que o admiraram ou à sua obra e que, de qualquer forma venham a ter acesso a esta mensagem.




Passado o 15º aniversário do desaparecimento de Aires de Almeida Santos, sinto, uma vez mais ao longo dos anos, alguma distância votada a esse poeta/escritor de raro percurso militante, flho de Angola do mais puro sentimento idealista, humanista e democrático.
Algo triste por esse vácuo ingrato, vagueei a minha escrita por alguns dos seus versos, qual rapsódia de rimas inspiradas no melhor que ele criou.
Após tantos anos, parafrasear, numa homenagem de saudade, o discurso poético coloquial e afirmativo de Aires de Almeida Santos, foi muito reconfortante para mim como fiha.

Modesto tributo à memória de quem tão generosamente deu tudo por um sonho!
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Alma do Poeta

O Poeta partiu...
No barro das ruas,
Pisados por toda a gente,
Ficaram sonhos velhos, secos, amarelados,
A estalar sob os pés de quem passou.

Depois, o vento os levou...

Sem regresso do Poeta é a viagem
Sem regresso é o sonho eterno
Rosa de Liberdade
Amor antigo, miragem!

"O barro já está tinto de tanto, tanto sangue
Há tanto tempo a correr"
Quando a minha Mãe vier... Saudade...

"Deixa chorar meus olhos
Deixa comigo
O peso do sonho tão antigo"

O Poeta chorou... o sonho pesou!

O sonho atirado aos "longes do mundo"
O Poeta chamado aos longes da morte.

No barro das ruas,
Pisados por toda a gente,
Ficaram sonhos secos, amarelados,
Quiçá desprezados,
A estalar sentidamente...

No barro das ruas secas, amareladas,
tão sofridamente amadas,
"Entre estrelas rutilantes, risos gritantes", sonhos no ar,
Vive
"Quem ousa negar"?
Eternamente a Alma do Poeta!

Sara Lídia de Almeida Santos Marques da Silva
Amora/Seixal 2008